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Emilia Pérez e eu
Minha experiência direta com o filme mais infame dos últimos anos, ignorando todas as controvérsias em torno da produção.
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Já escrevi sobre as polêmicas dos bastidores de “Emilia Pérez”, mas não falei do que achei do filme em si. Talvez, por um esgotamento mental com tudo relacionado à produção e uma das campanhas mais desastrosas de todos os tempos. Infelizmente, a festa pela primeira indicação de uma mulher transgênero ao Oscar de melhor atriz virou um enterro.
Para piorar, temos todo o debate público em torno desta bagunça. Há aqueles que defendem o musical e acusam os que têm opiniões negativas de clubismo ou de serem “Marias vão com as outras”, por todo o imbróglio com Fernanda Torres e o brasileiro “Ainda Estou Aqui” – como se não houvesse nada passível de crítica na obra do francês Jacques Audiard.
Quando mencionamos os problemas da representação latina e trans, discutidos meses antes de qualquer tweet de Karla Sofía Gascon ressurgir, os fãs de “Emilia Pérez” sentem que estão sendo ofendidos, xingados de intolerantes pela “patrulha do politicamente correto” – o que, em geral, só faz com que teçam elogios ainda mais exacerbados ao musical.
É uma discussão que dificilmente rende um bom diálogo. Portanto, pensei em falar da minha experiência direta com o filme. Quando assisti, no ano passado, eu não sabia nada sobre a obra. Minto, sabia apenas que era um musical (o que me dava preguiça), mas tinha visto um comentário positivo no Bluesky e resolvi experimentar. Sabia também que tinha Zoe Saldaña porque a reconheci na imagem de divulgação, mais nada.
Logo no começo, achei estranho ver uma advogada com um laptop, como se estivesse num Starbucks, no que me pareceu ser uma feira. Não conheço o México a fundo, talvez isto seja comum, mas não parecia fazer muito sentido. Estranhei também a escuridão, o alto contraste. Não, eu não esperava um filtro amarelado. Mas também não esperava aquilo.
Percebi que as músicas não eram propriamente cantadas, mas sussurradas e não muito bem. A princípio, achei uma decisão boa, tornar os pensamentos mais íntimos dos personagens em algo que não pode ser bradado aos quatro ventos ou numa afinação perfeita. Depois, no entanto, me pareceu evidente que os atores só não cantavam bem.
Há Selena Gomez, que não é má cantora. Seu espanhol, contudo, é como ver Katy Perry gravando músicas para o jogo “The Sims”. Há, inclusive, algumas expressões esquisitas, que me soaram mal traduzidas, ou traduzidas pelo ChatGPT. Logo pensei, “mas não havia ninguém no set que pudesse corrigir, um professor de espanhol ou um coach de sotaque mexicano?”
Às vezes, “Emilia Pérez” parece ter sido dirigido por mais de uma pessoa e todas com visões muito diferentes. Há, sem dúvida, um traço cômico em cenas como a da “cirurgia de mudança de sexo” (uma expressão em desuso, por sinal) e na insistência em comentar que a personagem de Saldaña tem uma bunda gorda – nenhuma calcinha com enchimento na face da Terra tornaria aquela bunda remotamente gorda.
Por algum motivo, o “glowup” da advogada está atrelado à transição de gênero de Emilia. Isto é, com todo o dinheiro que ela ganhou pelo serviço prestado, ela pôde finalmente emagrecer(!) a bunda e estilizar as sobrancelhas grossas – coisas que ela também poderia ter feito pobre mesmo. Sei lá, não entendi. Me esforcei muito para ver razão em coisas que não tinham uma.
Confesso que achei comovente o primeiro encontro de Manitas com Rita, e que senti empatia por um personagem que é forçado a desempenhar um papel ameaçador e violento, masculino ao extremo, mas que é, na realidade, o oposto disto. Até me lembrar que estamos tratando de um narcotraficante perigoso, responsável pela morte de centenas ou até milhares.
Enquanto assistia, ainda tive a boa vontade de cogitar “bom, o México foi escolhido como pano de fundo porque países latinos têm papéis de gênero muito restritos e, de agora em diante, o filme irá discutir justamente como performamos estes papéis e, por supuesto, um musical se encaixa como uma luva na proposta de ‘performance’”. Não era nada disso.
Há, então, duas tramas paralelas. Na primeira, a trama de “Uma Babá Quase Perfeita”, quando Emilia se reecontra com os filhos, mas se passando por outra pessoa. E na segunda, a reinvenção de Emilia como uma filantropa que tenta, em segredo, desfazer o mal de sua vida pregressa – mas, ao mesmo tempo, aceitando as palmas pelo trabalho e dando entrevistas toda sorridente à imprensa.
Pensei “ah já sei, ela vai ser reconhecida por algum criminoso e vamos ter a situação clássica do Al Pacino, aquela do ‘justo quando estou tentando sair, eles me puxam de volta’”. E também não era nada disso. Aqui, “Emilia Perez” muda totalmente de tom, o que me fez lembrar de um colega de faculdade. Vamos chamá-lo de Mário.
Mário era o típico aluno vagabundo, que reclamava de ter de ver filmes (numa faculdade de cinema), que não levava uma única matéria à sério e que nunca abriu a boca para dizer algo que prestasse. Todo mundo odiava o Mário. Ele era um tosco. No último ano, só alguns grupos poderiam filmar o trabalho de conclusão utilizando película, porque era caríssimo.
O que o Mário fez? Tirou do cu um roteiro sobre a guerra no Congo – país que ele, com certeza, não saberia nem apontar em um mapa. Era nítido e cristalino, para a turma inteira, que ele iria argumentar à banca que o seu projeto merecia ser rodado em película devido à importância do assunto. Um assunto que ele nunca tinha sequer abordado antes.
E o Mário me veio à mente porque, por um bom pedaço de “Emilia Perez”, o senso de humor (ainda que torpe) é colocado totalmente de lado e há quase um daqueles comerciais dos Médicos Sem Fronteiras, mas sobre o violento histórico do México com o narcotráfico. É algo tão forçado e tão fora de lugar, que só poderia ser um plano do Mário.
É fácil supor que “Emilia Pérez” passou por vários tratamentos e que, no final das contas, o diretor não conseguiu se decidir qual seria o melhor e acabou misturando tudo. Meio aturdido, ele se lembra que ainda precisa resolver a primeira trama, aquela da “Babá Quase Perfeita”, e propõe uma conclusão até infantil de tão sem noção que ela é.
Terminei o filme totalmente confusa com as intenções do diretor. A ideia era criar empatia por meio da tragédia? Punindo a personagem pela própria transição? Por que a violência tem de ser um fim inevitável para quem é trans? Será que o diretor pensa que só assim o espectador conseguiria sentir pena dela? O que foi isso? E, alguns minutos depois, percebi do que se tratava.
Se “Green Book” foi um filme sobre racismo para brancos, “Emília Perez” é um filme sobre uma mulher latina e transgênero para pessoas brancas e cisgênero. Não acho que o diretor seja transfóbico ou xenofóbico, mas acho que é ignorante e prepotente. Ele quis estender a mão à causa, mas sem se aproximar da “ralé” – por não conseguir admitir a possibilidade que ainda tenha algo a aprender, alguma convicção a retocar.
Na interpretação mais caridosa que eu posso fazer, Audiard é como um avô que quer muito apoiar o neto trans, porque sabe que é a coisa certa a se fazer, mas que vive repetindo algum termo ou comentário preconceituoso e que fica bravo quando o neto tenta corrigi-lo. Quem esse fedelho pensa que é? Alguém com conhecimento de causa?
Se não fosse pela extraordinária autodestruição de Karla Sofía Gascon, e também pelos comentários ignorantes do diretor, o filme de Audiard teria prestado um imenso favor à Academia, composta por muita gente privilegiada, que também pensa e age com a mesma petulância.
Com a consagração de “Emilia Pérez”, Hollywood poderia ter sinalizado apoio à comunidade latina e à comunidade LGBTQ+, dois dos grupos mais perseguidos por Donald Trump, ao mesmo tempo. Não por se importarem de verdade com estas pessoas, óbvio. Teria sido apenas pela… performance.