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Não há mais tempo
Com quatro indicações ao Oscar, "O Agente Secreto" trata da memória e da identidade de um país demolido por interesses políticos.
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Eu era uma pessoa quando assisti “O Agente Secreto” pela primeira vez e, ao rever, já tinha me tornado outra. Não gosto de falar de filmes na primeira pessoa – investi muito na minha profissionalização e este estilo mais casual me lembra dos blogs que mantive na adolescência. Mas é impossível falar de “O Agente Secreto” de maneira impessoal.
Com quatro indicações ao Oscar, o filme de Kleber Mendonça Filho trata de memória e identidade – temas já muito queridos ao diretor de “Retratos Fantasmas” e “Bacurau”. Para brasileiros, é impossível assistir e não rememorar. As ruas, os carros, as roupas, os rostos… Até a forma com que os locutores de rádio costumavam enrolar os “erres”.
Tudo remete a um país demolido por interesses políticos – o Brasil de nossos avós, de nossos pais, das Donas Sebastianas que conhecemos pela vizinhança e em reuniões de família (nossa última “Dona Sebastiana”, uma tia do meu pai, está agora com 92 anos).
Foi na Mostra de São Paulo, em outubro de 2025, que vi “O Agente Secreto” pela primeira vez. Era a segunda exibição do filme no Brasil, num dos poucos cinemas de rua que ainda restam na cidade. Na mesma noite, fiz algumas anotações. Comentei que nasci em 1986, ou seja, quase uma década à frente do ano em que a trama se desenrola. Mesmo assim, peguei alguns resquícios.
Lembrei do Fusca do meu avô; do relógio luminoso das lojas Mappin na frente do meu prédio; do fotógrafo onde todo o bairro tirava as fotos 3×4 e outros tantos detalhes. Fiquei maravilhada com a direção de arte, o cuidado com os cenários, os figurinos – todos os objetos que nos parecem tão familiares e, sem dúvida alguma, tão estranhos e exóticos aos gringos que nos aclamam.
E pensei, principalmente, na tragédia de um filho sem lembranças do pai, ocupando um lugar cuja memória também foi roubada – um local sem qualquer vestígio das pessoas que habitaram ali, dos dramas que elas viveram ou testemunharam. De maneira casual, ele diz que as suas memórias de infância se desbotaram com o tempo. Não sobrou nada, só os relatos dos outros.
Em outubro, eu não tinha me atentado tanto à busca do personagem de Wagner Moura por algum registro de sua mãe – uma Maria Aparecida dos Santos entre centenas de mulheres com o nome idêntico. Em outubro, eu tinha mãe. Desde o final de dezembro, não tenho mais. A minha não era Maria Aparecida, mas quase. Era Marisa.
Depois que revi “O Agente Secreto”, o filme já não trata tanto de um pai que busca refazer a vida com o filho, mas de um homem tentando, desesperadamente, se apegar à própria história – passado e futuro. Parte da minha história morreu com a minha mãe, assim como todas as memórias que ela carregava de seus próprios pais e irmãos (todos se foram antes do meu nascimento, só fiquei com os relatos).
Quando perdemos a conexão com o passado, é como se um cabo crucial fosse cortado, fazendo com que a gente flutue pelo espaço sem rumo definido. E esta era a ideia. Este era o projeto político. Destruir e desfazer tudo o que nos torna nós mesmos – reduzir o ser humano, enfim, a um pedaço de carne, sem nome, sem identidade, sem demanda, sem desejo, sem oxigênio. Morto.
E para onde vamos agora? Mesmo diante deste fato incontestável que é a morte, a humanidade há de resistir. Mas de que forma? Em busca de alguma dica, fui ler a letra de “Não Há Mais Tempo”, música de Angela Maria que encerra “O Agente Secreto”:
“Meu bem, não sei
Como é que tudo aconteceu
Éramos dois
E hoje sou somente eu
Não faz sentido
Eu ter vivido entre os teus braços
Por toda vida
E agora ter que aprender a ser só
Não há mais tempo
Pra novamente recomeçar
Gastei a vida
Na tentativa de te agradar
Só posso dar
A outro amor que eu encontrar
Esta tristeza, esta saudade
Estas lembranças do nosso amor”