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Ela é chata mesmo. E daí?
Na série "Pluribus", do mesmo criador de "Breaking Bad", uma escritora de gênio difícil resiste a uma invasão alienígena.
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“Na noite, desprotegido
E em estupor vive o mundo;
No entanto irônicas luzes
Aqui e ali mostram seu brilho,
Onde quer que troquem os
Justos as suas mensagens:
Possa eu, como eles composto
De Eros e pó e assediado
Por negação e desespero,
Ser também iluminado.”
Na série “Pluribus”, uma invasão alienígena transforma quase toda a humanidade em abelhas operárias. Feita por meio de uma transmissão intergalática, a invasão não substitui os humanos, como no clássico “Invasores de Corpos”, mas faz com que todos passem a partilhar de uma única consciência – bem, quase todos.
Por algum motivo, só treze pessoas em todo o planeta não foram assimiladas ao coletivo e ainda mantém as suas personalidades (por enquanto). Uma delas é Carol Sturka, uma escritora americana do Novo México. Interpretada por Rhea Seehorn, Carol é autora de romances que faziam sucesso com o público feminino, mas que ela mesma despreza.
Carol é lésbica e teve de modificar a ideia original para encaixá-la ao molde heteronormativo. O galã de seus livros era, a princípio, uma mulher. Por exigências mercadológicas, contudo, a personagem foi transformada em homem. E, desde que foi submetida à “terapia de conversão” quando era adolescente, Carol odeia ser obrigada a “se encaixar”.
Antes mesmo de assistir “Pluribus”, já tinha ouvido falar que a protagonista era chata, grossa, antipática etc.. O que eu vi foi uma mulher agindo de maneira condizente com o histórico e as circunstâncias dela. Achei o seu comportamento tão coerente que o grande dilema da série, ainda que eu tenha gostado muito desta primeira temporada, não funcionou para mim.
Os “outros”, aqueles que foram assimilados à colmeia alien, são apresentados como figuras benéficas, harmoniosas, que trabalham em conjunto. São incapazes de mentir ou de matar um ser vivo – não arrancam nem uma maçã de uma árvore. São como espíritos de luz da novela “A Viagem”. E, no entanto, eu compreendi a fúria de Carol, sua resistência em aderir à nova norma.
Acho que aqueles que estão mais habituados a protestar o “inevitável” conseguem compreender essa fúria. Era “inevitável”, por exemplo, a mulher se submeter ao homem. Era “inevitável”, para toda a população LGBTQIAP+, passar a vida dentro do armário. Todos os “inevitáveis”, afinal, dependem da nossa colaboração, do nosso derrotismo.
Por mais bonzinhos que os “outros” pareçam, qualquer causa que dependa de uma rendição tão absoluta – não é aceitável nem mesmo que um punhado de pessoas vivam de maneira diferente – só pode representar uma ameaça à humanidade como um todo. E para resistir, é preciso ser chato. É preciso ser antipático. É preciso ser grosso.
Ao tomar posse da prefeitura de Nova York, o socialista Zohran Mamdani, filho da cineasta Mira Nair, discursou:
“A maioria não irá usar a linguagem que frequentemente esperamos daqueles que exercem influência. Dou boas vindas à mudança. Por tempo de mais, aqueles fluentes na boa gramática da civilidade implementaram o decoro para mascarar iniciativas de crueldade.”
Nos Estados Unidos, o tema da “civilidade” é discutido há anos. Sempre que crianças morrem em algum tiroteio, os políticos da direita oferecem “pensamentos e preces” – mas rejeitam qualquer medida para restringir o acesso às armas.
Quando Charlie Kirk foi assassinado, em decorrência da própria retórica virulenta, os trumpistas combateram qualquer declaração ou postura que não fosse de extremo luto e pesar. Kirk podia ser grosseiro à vontade e incitar a violência o tanto que quisesse, mas seus detratores foram expostos e perseguidos por muito menos. Perderam os empregos, foram ameaçados.
A pressão pela civilidade, pela “boa educação”, é uma ferramenta do fascismo – acoberta intenções funestas e castiga qualquer tipo de resistência. Em “Pluribus”, a manipulação dos “outros” é tamanha que Carol não pode nem perder a calma sem provocar a morte de alguns milhões de pessoas. Aos poucos, ela é treinada a se tornar mais gentil, tranquila, resignada – como um animal domesticado.
E assim como o lobo que primeiro se aproximou do homem, ela é seduzida pela conveniência e pela companhia. Tudo que ela pede, os “outros” dão. Tudo que ela pergunta, os “outros” têm de responder. Todos os seus desejos são prontamente atendidos. Vamos ser francos, os “outros” são como os assistentes de inteligência artificial que abusam de nossas fragilidades e da nossa sociabilidade intrínseca.
Os “outros” não compreendem sarcasmo; acatam pedidos absurdos sem qualquer senso crítico – e, mesmo tendo acesso à totalidade do conhecimento humano, de toda arte produzida às nossas memórias mais íntimas, são incapazes de criar. Podem recitar todos os poemas já escritos, em todas as línguas, mas não conseguem sentir. Só fingem que sentem, para nos cativar.
Em um texto intitulado “I Am An AI Hater”, Anthony Moser escreveu:
“Eu entendo: você quer permissão. Tem uma máquina ali no canto, embrulhada em pele humana, que faz coisas feitas de merda e de sangue parecerem com o que você quiser (desde que não olhe muito de perto). Você deu uma dessas coisas para o seu professor e nem perceberam. Seu chefe mandou usá-la depois de demitir metade da sua equipe e deu tudo certo. Você empurrou essa coisa nos seus filhos e eles adoraram. Você quer saber que pode usá-la de vez em quando, sem que eu pense mal de você. Você não precisa que eu acredite que ela é útil, só quer que eu seja educado sobre isso.
Mas eu odeio IA. E eu não vou ser educado. A máquina é repugnante e devemos destruí-la. As pessoas que a construíram são canibais insípidos que se alimentam de bosta e glorificam a ignorância. Tenho certeza de que é mesmo um insulto à vida.
Comecei a odiar IA justamente por fazer tudo que ela não consegue: lendo e compreendendo a língua humana; pensando e refletindo sobre ideias; considerando o significado das minhas palavras e o seu contexto; amando as pessoas, fazendo arte, vivendo no meu corpo com todas as suas falhas, seus sentimentos e vida. A IA não consegue odiar, porque a IA não sente, nem pensa ou se importa. Só humanos podem odiar. Eu celebro a minha humanidade.”
“Pluribus” nos pergunta “você está do lado da humanidade, mesmo que os seus últimos defensores sejam chatos de galocha?” E a resposta, é claro, deveria ser “sim” – mas eu sou (e sempre fui) uma chata de galocha.