Luto

Há vinte anos, mais ou menos, que eu vinha me preparando para lidar com a morte da minha mãe. O câncer dela apareceu pela primeira vez nos anos 2000, quando eu ainda estava na faculdade. Na época, sei lá por que, eu não quis contar a ninguém. Acho que não queria que os meus colegas me tratassem com pena, que ficassem (mais) desconfortáveis perto de mim. Só o meu namorado sabia, pois não teria como esconder dele – se eu fosse uma boa atriz, teria tentado.

O câncer é uma doença que corrói não só o portador dela, mas toda a família e os amigos que estiverem ao redor. Ali, eu tomei a decisão consciente de me isolar das pessoas com quem eu mais convivia. E essa tristeza, aliada ao meu histórico de depressão da adolescência, me acompanhou há quase duas décadas. Estraçalhou os meus relacionamentos, criou uma crosta gélida em torno do meu coração, mas não o congelou por completo.

Por mim, o gelo teria extirpado toda a minha capacidade de me emocionar com qualquer coisa. Na pós-graduação, escrevi a minha monografia sobre Buster Keaton, talvez por desejar a proeza de também me quebrar toda, mas com a expressão impassível. Queria ter me tornado uma fortaleza emocional. Fracassei, porém, nas várias tentativas de destruir a minha vulnerabilidade. No fim das contas, parece que ela é bem forte.

Mesmo sabendo que, de uma forma ou de outra, o dia da morte dela chegaria, eu nunca consegui me “preparar” de fato. Ainda veio como um choque. Como uma dor que, por mais que eu tenha tentado antecipar repetidas vezes, continuou causando o sentimento mais horroroso, como se eu jamais tivesse concebido algo assim.

Quando a vi morta, soltei um grito indiscernível, mas as lágrimas não saíram de imediato – provavelmente, numa última tentativa idiota de não sofrer, sendo que o sofrimento já estava todo lá. Em silêncio, repassei os últimos momentos, tudo o que poderia ter feito de diferente, mas está claro que ficar remoendo cada gesto, cada palavra, cada possibilidade não me ajudou em nada durante todos estes anos.

Minha mãe sempre foi muito teimosa. Ela viveu do jeito que ela quis e morreu do jeito que ela quis – em casa, dormindo ao lado do meu pai, que foi o grande amor da vida dela. Ela não estava se sentindo bem, mas se recusou a ser levada ao hospital. “Tudo bem,” pensamos. “Vamos aguardar o resultado da biópsia e aí vemos qual é o tratamento desta vez.” E morreu antes do resultado, já sem vontade de passar por mais uma de várias provações. Só nos basta aceitar.

Estou escrevendo tudo isto como forma de processar o meu luto, é óbvio, mas também me dando conta de que qualquer tentativa de racionalizar os nossos sentimentos é, na verdade, patética. Não há como. E estou ciente da ironia, pois estou aqui repetindo o mesmo processo e esperando um resultado diferente.

O que há mesmo de diferente, contudo, é que não estou mais falando só comigo mesma, dentro da minha própria cabeça, mas com você. Para que a minha dor possa te servir de algo, para que você também perceba que não há preparo, que não há processo mental que dê conta de domar o que nos torna humanos. Só nos basta aceitar.