A revolta dos sub-humanos

Em "Novocaine: À Prova de Dor", "Mickey 17" e "Acompanhante Perfeita", a dor é um chamado para a luta.

🩷💜💙 

Este texto tem mais de 10 mil caracteres. Qual tal uma caixinha?

Há pouco tempo, notei uma coincidência em algumas produções recentes – no caso, “O Macaco”, “Mickey 17”, “A Substância” e “Ruptura”. E mais uma vez, tenho de resgatar “Mickey 17”. Desta vez, para relacionar a ficção científica do coreano Bong Joon-ho com “Acompanhante Perfeita” e o lançamento “Novocaine: à Prova de Dor” (poderia relacionar com “Ruptura” também, mas deixa pra lá).

Vamos começar pelo lançamento, que é o meu pretexto. Em “Novocaine”, Jack Quaid interpreta Nathan, um rapaz com uma condição rara que impede com que ele sinta dor. Por mais que nos perturbe, a dor tem o propósito de avisar, por exemplo, quando estamos famintos ou quando a água do chuveiro está fervendo. É um mecanismo de sobrevivência – sádico, porém necessário.

Sem esse sistema de alarme da natureza, Nathan leva uma vida protegida (literalmente). Em seu apartamento, todas as quinas são cobertas para evitar acidentes, já que ele pode se machucar e sangrar por horas sem perceber. Por motivos óbvios, ele não sai muito. Quando não está no banco onde trabalha, joga videogame com um amigo virtual. É uma rotina triste, vazia…

No ensaio “O existencialismo e a sabedoria das nações”, Simone de Beauvoir dissertou que a doutrina existencialista tende a perturbar a ideia de que “se o homem não pode modificar a sua essência, se não intervém no seu destino, só lhe resta aceitá-lo com indulgência: isso dispensa-o das fadigas da luta.” Nosso herói, porém, logo encontra uma razão para lutar (literalmente).

Vivida por Amber Midthunder (do ótimo “O Predador: A Caçada”), Sherry trabalha como caixa no mesmo banco de Nathan. Os dois têm histórias de vida opostas. Ela é órfã e passou por vários lares diferentes. Ele foi criado, praticamente, numa bolha e ainda mantém algumas regras rígidas – para ilustrar, ele não come alimentos sólidos, por medo de mastigar a própria língua.

Se os dois se apaixonassem e formassem um casal, eles poderiam se encontrar num ponto intermediário mais saudável para ambos. Ela faria Nathan se arriscar mais e experimentar coisas novas; e ele seria o porto seguro que Sherry nunca teve. A trama toda se complica mais adiante, é claro, mas fiquei com uma cena específica na cabeça.

Num bar, um ex-colega de escola reconhece Nathan e tira sarro dele. Apelidado de “novocaína”, ele era usado pelas crianças como um saco de pancadas, já que não sentia dor. A violência do bullying, no entanto, não precisa ser física para deixar as suas marcas. Levar um soco não é ruim só pela sensação, mas pela constatação de que alguém despreza a sua integridade a esse ponto.

Nathan não reage às provocações, pois está acostumado. É como se a chacota fizesse parte do seu transtorno. Além de não sentir um chute ou um beliscão, ele também não deve se sentir ofendido ou injustiçado. Esta apatia manifesta um medo fundamental diante da existência – um medo instilado nele durante a vida inteira.

Sempre que sofremos um revés qualquer, nos perguntamos o que fizemos para merecer aquilo – e, quando não há um motivo claro, nos voltamos contra nós mesmos. A crueldade ainda maior é que, ao sermos tratados de maneira desumana por tempo suficiente, nós mesmos perdemos a capacidade de vislumbrar uma realidade diferente. As porradas, afinal, já não doem tanto assim.

Ao longo de “Novocaine”, a característica pela qual Nathan foi tão atormentado acaba se tornando o seu maior trunfo – e, por meio dela, ele pode reaver o seu senso de humanidade e conexão com os outros, ainda que tenha de quebrar alguns ossos. Não é nada revolucionário. É uma comédia de ação divertida e com algum alicerce emocional.

Acompanhante Perfeita

Já em um papel bem diferente, Jack Quaid faz também “Acompanhante Perfeita”. Logo no início, os namorados Iris (Sophie Tatcher) e Josh (Quaid) estão a caminho de uma casa afastada, perto de um lago tranquilo, para passar um tempo com os amigos dele. Ela está ansiosa, porque acha que é tratada diferente dos outros.

Os trailers de “Acompanhante Perfeita” foram bastante criticados por conterem um certo spoiler. Concordo que é melhor ver o filme sem conhecer toda a trama e vou manter a discussão o mais vaga possível. Por outro lado, o tal spoiler se refere a uma revelação fácil de deduzir e que acontece com uns vinte minutos de duração ou menos. Ainda há muito mais pela frente.

Assim como “Novocaine”, “Acompanhante Perfeita” trata de uma protagonista que é mal tratada e subjugada. Só que, ao contrário de Nathan, ela sente dor e desejo com uma intensidade imensa – mesmo assim, seus sentimentos não importam para mais ninguém além dela mesma. E enquanto aceitar esta situação, Iris é a garota dos sonhos de qualquer homem.

A autora Ursula K. Le Guin dizia que muitos esperam que o autor de ficção científica faça previsões sobre o futuro, mas que o gênero não prevê; ele descreve. “Acompanhante Perfeita” faz uso de uma premissa fantasiosa para abordar questões de gênero do aqui e agora – isto é, a mulher só é amada enquanto for útil ao homem, pois é vista como uma posse, um objeto qualquer.

De certa forma, “Acompanhante Perfeita” é o que a diretora Olivia Wilde queria dizer com o desastrado “Não Se Preocupe, Querida”. Em nossa sociedade, as mulheres devem sacrificar a própria autonomia para atender aos pedidos dos homens – não como namoradas ou esposas, mas como escravas. Porque estamos numa categoria abaixo dos “verdadeiros seres humanos”.

Neste caso, o processo de desumanização faz parte de um projeto mais insidioso, que é o acúmulo de capital. Nos Estados Unidos, há mais mulheres com ensino superior do que homens. O patriarcado só consegue vencer se a competição for eliminada. Assim, há um interesse financeiro em papéis de gênero muito restritos, em que o homem provê e a mulher fica em casa.

Em sua obra, Beauvoir se referia muito ao “homem”, mas no sentido de “sujeito” ou “indivíduo” (até nisto o masculino é o padrão). Faço, portanto, uma ligeira modificação nos termos utilizados pela filósofa: Uma mulher só se situa ao assumir riscos e se projetar no mundo. É através desta projeção que a mulher acaba situando as outras mulheres que estão ao seu redor.

Mickey 17

Na distopia de Bong Joon-ho, Mickey (Robert Pattinson) precisa fugir de credores e aceita um trabalho com altíssimo grau de periculosidade. Em uma enorme nave espacial, rumo a outro planeta habitável que a humanidade também possa estragar, ele é cobaia de experimentos científicos. Ninguém se importa muito com ele – se morrer, é só “imprimir” um outro Mickey.

O “dezessete” do título se refere ao número de clones que foram gerados em nome do progresso – ou seja, dezesseis versões dele mesmo sofreram mortes horrorosas. Mais horrível ainda do que morrer e retornar a este tormento sem fim é a frieza com que ele é tratado. Se Mickey é um descartável, seu bem estar não importa nem nos breves períodos de vida que ele tem.

Mickey 17 aceita a sua condição sem contestar. Na tentativa de sobreviver, ele se sujeita à morte quase que diariamente. Porque foi convencido de que o seu sacrifício é crucial ao sistema do qual faz parte. Mickey 18, contudo, pensa diferente e busca a emancipação. Para Beauvoir, “o homem tem que ser seu ser; a cada instante ele busca se fazer ser.”

Ao lidar com a noção de trabalho, o ponto de partida de Karl Marx em “Manuscritos” é a ideia de que os seres humanos são animais sujeitos às necessidades físicas – e que, ao atender tais necessidades, se organizam socialmente por meio de uma produção coletiva. Assim, o trabalho define, de maneira simultânea, a transformação da sociedade e da existência de cada indivíduo.

Numa espécie de Marxismo existencial, Beauvoir chamava de “sub-homem” (de novo, no sentido de “sub-pessoa”) aquele que recusa a sua condição humana e não assume os riscos de seu futuro, isto é, alguém que rejeita “o lançamento de si mesmo rumo a um fim, através da busca pela liberdade.” O homem precisa agir; ele se constitui como indivíduo ao transcender coletivamente.

O “sub-homem” convive, portanto, com uma contradição interna (representada, em “Mickey 17”, por clones em desacordo). Ele existe, mas nega a “paixão” do existir. Para o Prof. Joseph Mahon, esta paixão é “um renovar da liberdade que traz consigo tanto desgosto quanto alegria; desgosto com o colapso de certos projetos, mas ainda a alegria de encontrar as suas mãos livres de novo e prontas para se estenderem na direção de um novo futuro.”

Ao abdicar da paixão, por medo desta liberdade ambígua, o “sub-homem” se torna apático, reprimido, anestesiado – e, por consequência, mais manipulável e fácil de dominar. Ele deixa de ser um indivíduo para se transformar em ferramenta, em robô ou reles carne para canhão. Pois está disposto a aceitar de terceiros qualquer ideologia que atribua algum sentido à vida.

Nathan, Iris e Mickey podem se conformar com uma vida de humilhação e escravidão, já que não conhecem nada diferente, ou podem exigir algo melhor – ainda que sob um risco considerável de fracasso. Nos três filmes, há cenas em que os personagens sofrem violências variadas com expressões de resignação ou impotência.

Esta falta de reação, seja por vontade própria ou não, nos incomoda. Instintivamente, sabemos que eles devem protestar e reivindicar a própria humanidade – mas a ficção científica não prevê, ela descreve. Nós mesmos nos sujeitamos a sessões diárias de embrutecimento e torpor. E aqueles que nos oprimem dependem desta indiferença ao sofrimento.

Encerro, mais uma vez, com Beauvoir:

“Para que a ideia de liberação tenha um sentido concreto, é preciso que a alegria de existir seja afirmada em cada um, a cada instante; é espessando-se como prazer, como felicidade, que o movimento rumo à liberdade assume no mundo sua figura carnal e real. Se a satisfação de um homem velho que bebe um copo de vinho não conta nada, então a produção, a riqueza são apenas mitos ocos; elas só tem sentido se forem suscetíveis de se recuperarem em alegria individual e vida; a economia do tempo e a conquista do lazer não têm qualquer sentido se o riso de uma criança que brinca não nos comove. Se não amamos a vida por nossa própria conta e através de outrem, é vão buscar alguma maneira de justificá-la.”

 

Referências (não ajustadas conforme as normas ABNT, pois o ser humano é livre):
Simone de Beauvoir, 1947.
“Simone de Beauvoir, Ethics of Ambiguity – The Sub-Human Person” – link
Gregory B. Sadler – The Philosophy Guy, 2020.
“A relação entre ambiguidade, liberdade e condição humana em Simone de Beauvoir” – link
Lucas Joaquim da Motta, Universidade Federal de São Carlos, 2018.
“Querer-se livre e querer-se moral é uma só e a mesma decisão: Simone de Beauvoir e a ética da ambiguidade” – link
Nathan Menezes Amarante Teixeira, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2017.