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Depuritanizar é preciso
Após a vitória de Mikey Madison no Oscar, mulheres reproduziram comentários misóginos em nome do "feminismo".
Seria estranho deixar o Oscar 2025 passar e não fazer algum tipo de comentário. Deixei um áudio para apoiadores no mural do apoia-se e participei de um podcast que deve ser publicado nesta sexta-feira. Também comentei o assunto no Bluesky, mas a reação à vitória de Mikey Madison como melhor atriz foi tão absurda, qualquer diálogo razoável era impossível.
A temporada de premiações deste ano foi, sobretudo, cansativa. Com escândalos e brigas de torcida, nunca tantas pessoas sem conhecimento de cinema, ou capacidade de assimilar nuances, se interessaram pelo Oscar – prova disto é a Ana Furtado (cuja cobertura só piora com o passar dos anos) soltando um “chupa, Argentina” após a vitória de “Ainda Estou Aqui”.
Na cerimônia inteira, só duas categorias surpreenderam, animação e documentário. Já nas principais, quem imaginava algum resultado muito diferente daquilo, como o Brasil levando todas as três estatuetas, estava desinformado ou muito empolgado. Isto é um fato. Não é opinião. Mikey Madison vinha levando a maioria dos prêmios há semanas e era mesmo a favorita.
Uma vitória de Demi Moore era possível, mas havia um consenso de que, caso ela ganhasse, seria mais pelo conjunto da obra do que por “A Substância”. Ou seja, menosprezar Madison por ser jovem faz menos sentido ainda. Fernanda Torres, como mencionei no conteúdo exclusivo antes da cerimônia, estava em terceiro lugar nessa corrida.
A vencedora mais nova da história do Oscar foi a atriz Tatum O’Neal, contemplada aos 10 anos, por “Lua de Papel” (1973), de Peter Bogdanovich. Desafio qualquer um a assistir este filme adorável e dizer que O’Neal não merecia o prêmio ou, então, que a sua performance é inferior por se tratar de uma criança.
Madison está com 25, bem longe do recorde. Afirmar que a Sue de “A Substância” venceu é, além de não compreender a mensagem de um filme bastante didático, reproduzir um preconceito que a própria Demi Moore enfrentou a carreira inteira – de que ela seria apenas um rostinho bonito, uma gostosa sem talento.
A chuva de misoginia (com forte contribuição dos perdigotos furiosos de mulheres) só se intensificou pelo papel que Madison interpreta em “Anora”, isto é, uma garota de programa. Supostas feministas reclamaram da “romantização” deste tipo de trabalho, algo que o filme não faz. O diretor Sean Baker vem tratando do tema ao longo de toda a sua filmografia. E sim, estou ciente das acusações de plágio, mas o argumento se mantém.
Para desqualificar a obra, apelaram também ao argumento da “hipersexualização”, sendo que Baker propõe uma abordagem humanista da personagem. “Hipersexualização”, na verdade, virou uma palavrinha da moda para quem é contra qualquer representação do ato sexual, isto é, os jovens que gostariam de pular as cenas de sexo que “não avançam a trama”. Que bom que Madison não compactua disto.
Para quem viveu nos anos 1990, numa cultura em que a homofobia era mato, enquanto artistas morriam de AIDS, é enlouquecedor que as gerações mais novas tenham se tornado tão moralistas. Falar de sexo em televisão aberta, promover o uso de camisinha e outros métodos contraceptivos, ressaltar a necessidade do consentimento etc., era (e ainda é) uma necessidade.
Nós só podemos nos defender quando temos vocabulário para tal e, quanto mais o sexo for encoberto por tabus, menos ferramentas teremos para estabelecer limites saudáveis e impedir possíveis abusos. Foi com a série “I May Destroy You”, por exemplo, que eu aprendi (sim, aprendi já adulta) que, quando um homem retira a camisinha sem avisar a parceira, é estupro.
Nossas noções do que é aceitável ou não, e mesmo do que é crime ou não, vão se atualizando com o tempo. A coletividade progride à medida que podemos discutir esses assuntos, sem qualquer tipo de censura ou melindre. Uma postura negativa diante da representação e da discussão do sexo só favorece o surgimento de sistemas de opressão.
Se o sexo for tratado como algo sagrado, com o único intuito de procriar, então as mulheres não precisam de métodos contraceptivos e qualquer prática homossexual deve ser banida – e, assim, um governo autoritário vai dilapidando os nossos direitos, as nossas identidades, as nossas vidas. O obscurantismo só favorece o fascismo.
Qualquer um que se julgue de esquerda e que considere o sexo como algo vergonhoso, um tema a ser evitado ou mesmo eliminado da esfera pública, está sendo usado como massa de manobra de uma ideologia que, ao longo da história, só multiplicou as mortes dos mais vulneráveis. E digo isto como alguém com uma libido negativa e que nem gostou tanto assim de “Anora”.
Não estou culpando o TikTok pelos equívocos dos jovens (no meu tempo, era o videogame ou a MTV), mas estamos rodeados de influenciadores, em todas as redes sociais, que tornam o conservadorismo mais palatável às gerações mais novas. De figuras criminosas como Andrew Tate, destinado a um público masculino, até uma “clean girl” promovendo uma estética de modéstia e pureza.
As adeptas do “quiet luxury”, que buscam se distanciar da ostentação dos novos-ricos (característica atribuída à cultura negra, por sinal), empurram o visual Marcela Temer de “bela, recatada e do lar” – quase invariavelmente, são também brancas, heterossexuais, magras e loiras. Uma espécie de Juventude Hitlerista.
De acordo com as “tradwives”, ficar em casa e cuidar do marido é tudo o que uma mulher pode desejar. Mórmons que exibem famílias numerosas e aparentemente felizes (tudo enquanto abusam dos filhos) transformam em “conteúdo” os preceitos da própria religião – sexo, é claro, só depois do casamento.
Estas tendências da internet reforçam papéis de gênero e tentam estabelecer regras arbitrárias de como devemos nos portar, do que podemos consumir. Você pode usar alguma cor além de bege, você pode priorizar uma carreira em vez dos filhos, você pode ver cenas “desnecessárias” de sexo. Lutar contra o puritanismo é questão de sobrevivência, tanto política como literalmente.